domingo, 6 de setembro de 2009

departures

'dias úteis, são tão frágeis as verdades que se rompem com a aurora - quem as não remendaria?'

- no percurso de um só dia, deixou Tudo 'pra trás e desbravou o novo e selvagem trilho. caminhou serenamente no desfrutar do caminho, bebendo de um só trago a novidade; e assim como do tronco brota a folha, o sol foi o prenúncio do seu contentamento recém-nascido.
deleita-se com a fusão extasiante e assustadoramente harmoniosa dos segredos caracterísiticos de cada lugar, das espontaneidades que arvoram dos olhos atentos e curiosos, dos dialectos que no fundo, se complementam e dos sentimentos partilhados.
ajusta-se lentamente à engrenagem-paradigma do lugar, com as portas da mente e do espírito escancaradas; agora revitalizadas.
assiste à redenção do coração eremita ao hedonismo emocional e regozija-se consigo mesma.
(- afinal havia mais um bombom escondido debaixo da caixa vazia.)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

dias raros, como os ares rarefeitos

os tiros que se ouvem ao longe perfuram os tímpanos e atravessam, na horizontal, as várias cabeças, petrificando-as.

e no fundo, o que mais a cansa é o círculo vicioso que não se fecha (nunca) mais, persistindo, sem cessar, no seu frenesim habitual cansativo e esgotante. sente a cabeça a explodir e as lágrimas a cair, ao longo de todo o seu corpo, ensopando-lhe as entranhas, ao perpassar cada poro da sua pele, fazendo com que esta absorva as suas lágrimas venenosas - ou envenenadas? (já não lhe interessa).
'maybe, maybe they'll stay true', ouve, de mansinho, ressoar no fundo do baú. (re)abre os olhos e acorda, de uma vez. como será que tudo vai terminar? será que vai voltar? a alegria triste que sente ao recordá-lo provoca-lhe lágrimas tristes que não consegue travar. relembra tudo em flashbacks velozes e deixa de se reconhecer, por instantes. sai de si e flutua, regredindo no tempo e viajando ao seu sabor..
agora sabe aquilo que não quer; aprendeu-o com ele.

domingo, 7 de junho de 2009

'all for nothing'

estaca zero: mais um (a).


deixa-te sorver, imóvel, pela força magnética que te suga para o buraco negro. Respira uma última vez e sê livre, pelo menos uma vez.
ergue a tampa da caixa e encara-os de frente, de um só trago - já (não) era (sem) tempo -; olha-os nos olhos, tenta vê-los por dentro e decifrá-los. descodifica-os e desenlaça-os, despedaça-os, se for preciso, mas Liberta-te. liberta-te e vomita tudo o que tens para vomitar. grita, esperneia, berra até as veias da garganta se arvorarem e chora, se te convier. mas esvazia-te.
(deixa o pássaro azul pousado no teu ombro e segue viagem, depois, mais leve e aliviada.
Só faltou o sorriso .)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

ecos.

..

e com as pálpebras dormentes e cansadas do fumo da mente deixou-se sorver no fumo líquido e volátil que se dissolvia na atmosfera amena do quarto, de olhos bem fechados.. - mais uma vez.

(..)

os ecos de melodias passadas, pesados, não deixam de a perseguir compulsiva e avidamente, com sede de abutre; tenta contorná-los mas resulta sempre entropia caótica interior. afinal, o Quê? o porquê,não o encontra, só o como ou o quando.

os esqueletos imóveis, outrora trancados no armário, voltam a conseguir escapar e a deixar as habituais sequelas como legado memorável, a cada passo largo.
e de repente? (desvaneceu-se.)






domingo, 10 de maio de 2009

semente, A.

Assistindo ao perene escorrer do nosso percurso, reflicto e medito. - Terá todo este labirinto de acasos e acontecimentos sucedido por artifício de algo ou alguém?

Encerro as pálpebras por instantes e tento afastar-me de tudo o resto.
Ouço-te. Ouço-nos correndo por entre searas, de corações descompassados e apertados, devorando a seiva da vida que nos pertence.
Fica em mim essa doce reminiscência que me beija. Inefável como toda a alma o é.

sábado, 9 de maio de 2009

Palco(s)

A cortina desce, vermelha e pesada, e o palco é devorado pelo silêncio e pela serenidade. Permaneço sozinha, sentada precisamente no centro da plateia eremita, a escutar a peça trágica que decorre no meu interior.

Ouço os anjos e demónios que se debatem ferozmente, em busca de um consenso longínquo e improvável – os opostos dificilmente se encontrarão e cruzarão harmoniosamente, é algo que não condiz com a nossa essência.

Assisto, como quem “vê de fora”, à atribulada peça que se desenrola na minha cabeça. É como se saísse de dentro de mim e me fitasse demoradamente, me auto-observasse com olho cirúrgico e, de súbito, entendesse tudo.

A peça prossegue, dominada pela tragicidade que tão-bem a caracteriza.
Faço agora parte integrante dela, cabendo-me o papel mais insignificante e invisível de todos: encerro em mim toda a nulidade e pequenez possível e, ainda assim, sorrio.

Entendo, então, que a minha existência consiste num enredo dramático-trágico – à semelhança do que se passa no teatro e nos seus meandros – que se liga, todo ele, a partir de conexões inimagináveis; como se todos habitássemos numa mesma gaiola, abafada e pequenina, onde todos conhecem os rostos uns dos outros. Entendo-me e vejo-me, entorpecida e agitada, interior e simultaneamente; numa corrida furiosa constante e na estaca zero onde já conquistei lugar cativo.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

madness' essay

ouço os passos em volta e percebo que muitas há de mim; cada uma delas deixada para trás, em cada momento e local especial (capacidade mutante-fascinante, esta, a do ser humano).

(Um dia azul, no outro verde - de início costumava desassossegar e assustar-me a mente, mas agora percebo que é parte da essência humana e, talvez por isso mesmo, incontornável;e nada disto é necessariamente mau. é Humano. carne esponjosa e porosa; vulnerável a intercâmbios osmóticos e simbióticos com tudo à sua volta. trocas e influências que nos moldam como sábios oleiros, que nos vão acrescentando sempre mais, seja verde, azul, violeta ou mesmo preto: fazem de nós aquilo que somos.)
Não, não acontece só aos outros. não era só Pessoa quem tiha tantos eu's distintos - por vezes contraditórios - : todos nós os temos, bem vivos e bem dentro de nós. simplesmente não os materializámos em obras de arte expostas (e partilhadas com o) ao mundo.
Nem todos somos génios como Pessoa. somos, indubitavelmente, loucos escondidos por entre as ranhuras dos nossos seres, sempre à espreita, a tentar provar a luz do dia, mas muitas vezes empurrados para trás, com olhar de desdém de um algum mocho severo que nos disciplina.
18.04.09