terça-feira, 27 de janeiro de 2009

uníssonos

sentada em frente à cómoda obsoleta - mas perfumada -, olhou-se demoradamente através do espelho que se encontrava à sua frente. Iniciou o ritual de todas as noites: vestiu-se, vagarosamente e com detalhe e leveza; ergueu os braços esguios e amarrou, com argúcia, uma grande e densa madeixa de cabelo a um gancho que sempre lhe arrefecia as mãos; de novo sentada, de frente para a cómoda, voltou a observar o seu reflexo no espelho trabalhado - onde estaria, agora? vaporizou um pouco de água de colónia sobre os pulsos e pousou o frasco. afinal, 'praquê tudo aquilo?
a porta bate com força e os pés já chapinham lá fora, enlameados, em direcção a uma Terra do Nunca que ninguém sabe onde fica.
Hoje foi uma noite diferente. O coração eremita recebeu calor e alento, mais uma vez em ambientes confusos e difusos, não desvirtuando este facto, de todo, a pérola brilhante nos seus olhos. Em Uníssono.
Mais uma noite de sono tranquila e reanimada. Mais os fogos-de-artifício dia e noite, as estrelas no reflexo do olhar e os cabelos perfumados ao vento, viajantes. Agora libertos e oxigenados..
Guarda escrupulosamente as duas pérolas na caixa mais especial que encontra e esconde-a debaixo da sua cama, fechada com amor.
Amanhã é outro dia
.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Dali's silver spoon

as toadas e cânticos anteriores acabam sempre por retornar à caixinha (cheia) de surpresas. agarrados a si trazem memórias. memórias carregadas de momentos, gestos e olhares.
e as músicas repetem-se...

imagino corações eremitas pendurados em ramos de árvores; sorrisos esquecidos sob a sombra de um sobreiro; olhares esquivos, agora transformados em poeira dos dias.
ante todo esse quadro surrealista, vejo também corpos. corpos intertes que jazem, por todo o lado, sob árvores transgénicas oriundas dos vários pomares das redondezas. no que resta desses corpos, vejo, um por um, a tristeza que lhes inunda os olhos difusos.
as mãos frias e cheias de nada..
o que mais me aborrece é pass(e)ar pelas ruas nuas e sujas e ter de ver todos esses pedaços de corpos em todo o lado, sob árvores ruidosas, matizadas de tons metálicos, de olhos vazios e longínquos, entregues a memórias e cânticos ancestrais.
a minha mente é apelidada de demente e estouvada por sonhar algo tão surrealista e improvável, mas o realismo mais distintivo do ser humano é, sem dúvida, o Surrealismo.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

estouvada.mente

neste momento estou extremamente irritada porque tinha acabado de escrever um post e, não sei como, saí da página e perdi-o. esvoaçou janela fora.

tentei, em vão, re-escrevê-lo (ideia estúpida), o que me deixou ainda mais irritada.
mas trouxe-me a bom porto: percebi que a criatividade humana e os momentos imaginativos em que a mente se expande são realmente momentos únicos, irrepetíveis e impossíveis de ser reproduzidos, nem mesmo pela própria cabeça de onde saíram. irónico e bonito, não?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Há dias assim

quando já não resta mais ninguém, quando as paredes e a atmosfera se enchem de vazio azul, quando tudo é cobrido por um silêncio incrível e voraz, aí só resta ela. ela e só ela; à mercê dos seus gritos e tempestades interiores. gritos que não se ouvem e tempestades sem chuva - apenas iluminadas por trovões radiosos.

ouve-se o som da porta a fechar, ruidosa, e da chave a rodar na fechadura. sentada de pernas à chinês, encostada a uma parede branca-cor-de-laranja e com a cabeça a pender para um dos lados, repara, um por um, em todos os detalhes característicos daquele cúbiculo, e pensa como tudo poderia ter sido arranjado e organizado de forma tão diferente. não fossem as nossas criações fruto de circunstâncias momentâneas e efémeras. um minuto a seguir, e tudo se teria feito de forma completamente diferente.

no país vizinho, alguém martela a cabeça com labirintos sem caminhos concretos e sem início, meio e fim. alguém pede desculpas evitáveis por esboços borrados que não se apagam, muito menos têm (re)solução.
a rapariga de pernas sentadas à chinês ecnontra-se agora deitada na tijoleira que lhe arrepia a pele, enquanto contempla as fotografias antigas coladas no tecto. gravuras que encerram em si sentimento e momentos amenos. abre os olhos e percebe que não há fotografias, só postais e posters comerciais.
recompõe-se e acende um cigarro. abre a janela e conta as estrelas. hoje estão mais brilhantes que o habitual e a lua cada vez mais pequena - irónico. não gosta destas noites, em que a lua se encontra em fase (de)crescente, dá-lhe a sensação de estar a desaparecer, aos poucos..
desistiu de manter o estado de vigília, deixando-se agora sorver por momentos e silêncios. folhas rabiscadas esquecidas em cima da escrivaninha e isqueiros sem gás, por todo o lado. apaga o cigarro no cinzeiro metálico e volta a fechar a janela. abraça-se a si mesma, enrodilhada e de cabeça escondida, enquanto as lágrimas chegam, brandas e apaziguadoras. o tempo não volta atrás, muito menos deixa espaço para segundas oportunidades. o travo amargo do 'tarde demais' há-de surgir, com toda a sua magnificiência, algum dia, à nossa porta. os 'nada é impossível' deixaram de fazer sentido para aquela mente utópica e sonhadora. hoje acordou e percebeu que existe um mundo concreto lá fora e que as ilusões fazem parte das brincadeiras de criança.
não se sente melhor quando se afunda em édens líquidos e fumos gasosos. o mundo muda, por instantes, mas um segundo e a Realidade atroz regressa, mais violenta e sádica do que antes. o Tempo mais ambicioso e ganacioso que nunca, como que um guarda-sombra. as pessoas à sua volta permanecem na mesma, senão mais disformes ainda. mais odiosas e insuportáveis.
há dias em que quer gritar aos ouvidos de todos os estranhos com quem se cruza na rua, gritar-lhes injúrias e desonras que os magoem e os deixem feridos e vulneráveis. dias em que suspeita de toda a gente e que julga que o mundo inteiro se uniu contra si, em constante conspiração, (com segredos ao ouvido, e tudo) ; há dias em que simplesmente desiste de tudo, e se deixa ficar de pantufas todo o dia, esquecendo que existe uma realidade palpável lá fora.
Há Dias.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

inject

your soul with liberty (salvation is free).









P.S.:falta-me ar

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O para.peito

Abro um novo capítulo no livro já gasto e amolecido pelo tempo. Deixo que a mão se funda no papel húmido e obsoleto; desfaço os nós da garganta e deixo que os novelos se deslacem com a delicadeza que lhes é tão característica.
Desacorrento a alma e deixo-a voar, misturar-se com o ar e respirar. Finalmente.

Permito-me a falar, de forma ordeira e civilizada, comigo mesma, agora a sós.
Abandono os sonhos, há tanto embrulhados em papel de lustro, à espera de ser abertos. Abandono-os para que possam, finalmente, levitar e alcançar o seu destino…
Afinal, de tanto os proteger dentro de uma redoma tão sufocante quanto impenetrável, sempre os espartilhei, ao invés de, pelo menos (!), os concretizar, para que ganhassem vida. Finalmente.

Liberto também os fantasmas em forma de esqueletos pendurados no armário. Já não preciso deles. Sempre mantivemos uma relação de dependência ambivalente. Se me escapavam, insistia em trancá-los de volta no armário; se lá permaneciam, sufocava-me a mim mesma com a sua presença…






(...)












Repouso a mente no parapeito do terraço e deixo-me absorver pelos cheiros, cores e texturas da atmosfera. Dentro das cores, reparo nas tonalidades – as doces tonalidades. Desassossego-me com a sua beleza…
Lembro-me do senhor dos ovos verdadeiros e da rapariga das mãos (sempre) frias. Inspiro, expiro e suspiro, com os olhos cerrados de êxtase.

queria andar sempre de mão dada com aquele sorriso triste e com aquela melancolia pesada nos olhos. Afinal, quem não se comove com tristezas? Tocam-nos, não só pela intensidade, mas acima de tudo pela sua beleza delicada, que tão-bem nos deleita… nada de sadismos; e tudo isto também não é para compreender.



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