ouve-se o som da porta a fechar, ruidosa, e da chave a rodar na fechadura. sentada de pernas à chinês, encostada a uma parede branca-cor-de-laranja e com a cabeça a pender para um dos lados, repara, um por um, em todos os detalhes característicos daquele cúbiculo, e pensa como tudo poderia ter sido arranjado e organizado de forma tão diferente. não fossem as nossas criações fruto de circunstâncias momentâneas e efémeras. um minuto a seguir, e tudo se teria feito de forma completamente diferente.
no país vizinho, alguém martela a cabeça com labirintos sem caminhos concretos e sem início, meio e fim. alguém pede desculpas evitáveis por esboços borrados que não se apagam, muito menos têm (re)solução.
a rapariga de pernas sentadas à chinês ecnontra-se agora deitada na tijoleira que lhe arrepia a pele, enquanto contempla as fotografias antigas coladas no tecto. gravuras que encerram em si sentimento e momentos amenos. abre os olhos e percebe que não há fotografias, só postais e posters comerciais.
recompõe-se e acende um cigarro. abre a janela e conta as estrelas. hoje estão mais brilhantes que o habitual e a lua cada vez mais pequena - irónico. não gosta destas noites, em que a lua se encontra em fase (de)crescente, dá-lhe a sensação de estar a desaparecer, aos poucos..
desistiu de manter o estado de vigília, deixando-se agora sorver por momentos e silêncios. folhas rabiscadas esquecidas em cima da escrivaninha e isqueiros sem gás, por todo o lado. apaga o cigarro no cinzeiro metálico e volta a fechar a janela. abraça-se a si mesma, enrodilhada e de cabeça escondida, enquanto as lágrimas chegam, brandas e apaziguadoras. o tempo não volta atrás, muito menos deixa espaço para segundas oportunidades. o travo amargo do 'tarde demais' há-de surgir, com toda a sua magnificiência, algum dia, à nossa porta. os 'nada é impossível' deixaram de fazer sentido para aquela mente utópica e sonhadora. hoje acordou e percebeu que existe um mundo concreto lá fora e que as ilusões fazem parte das brincadeiras de criança.
não se sente melhor quando se afunda em édens líquidos e fumos gasosos. o mundo muda, por instantes, mas um segundo e a Realidade atroz regressa, mais violenta e sádica do que antes. o Tempo mais ambicioso e ganacioso que nunca, como que um guarda-sombra. as pessoas à sua volta permanecem na mesma, senão mais disformes ainda. mais odiosas e insuportáveis.
há dias em que quer gritar aos ouvidos de todos os estranhos com quem se cruza na rua, gritar-lhes injúrias e desonras que os magoem e os deixem feridos e vulneráveis. dias em que suspeita de toda a gente e que julga que o mundo inteiro se uniu contra si, em constante conspiração, (com segredos ao ouvido, e tudo) ; há dias em que simplesmente desiste de tudo, e se deixa ficar de pantufas todo o dia, esquecendo que existe uma realidade palpável lá fora.
Há Dias.

3 comentários:
Olha tu! :)
Gosto muito da forma como escreves, dá para sentir tudo (ou quase tudo).
Já estás na lista de blogues obrigatórios :p
Ah e obrigada pelo comentário.
Somos sádicos, sim, e estúpidos também.
*
é o calor que nos faz sentir vivos e é esse sentimento de vida que nos faz querer cair, ou pelo menos tentar, outra e outra vez.
não digas essas coisas que eu incho de ego :$ ahah
beijinho, e vê lá se escreves :p
tenho tantas saudades tuas Mariana... e nem imaginas como elas se tornaram palpáveis ao ler este.
Enviar um comentário