A cortina desce, vermelha e pesada, e o palco é devorado pelo silêncio e pela serenidade. Permaneço sozinha, sentada precisamente no centro da plateia eremita, a escutar a peça trágica que decorre no meu interior.
Ouço os anjos e demónios que se debatem ferozmente, em busca de um consenso longínquo e improvável – os opostos dificilmente se encontrarão e cruzarão harmoniosamente, é algo que não condiz com a nossa essência.
Assisto, como quem “vê de fora”, à atribulada peça que se desenrola na minha cabeça. É como se saísse de dentro de mim e me fitasse demoradamente, me auto-observasse com olho cirúrgico e, de súbito, entendesse tudo.
A peça prossegue, dominada pela tragicidade que tão-bem a caracteriza.
Faço agora parte integrante dela, cabendo-me o papel mais insignificante e invisível de todos: encerro em mim toda a nulidade e pequenez possível e, ainda assim, sorrio.
Entendo, então, que a minha existência consiste num enredo dramático-trágico – à semelhança do que se passa no teatro e nos seus meandros – que se liga, todo ele, a partir de conexões inimagináveis; como se todos habitássemos numa mesma gaiola, abafada e pequenina, onde todos conhecem os rostos uns dos outros. Entendo-me e vejo-me, entorpecida e agitada, interior e simultaneamente; numa corrida furiosa constante e na estaca zero onde já conquistei lugar cativo.