segunda-feira, 18 de maio de 2009

ecos.

..

e com as pálpebras dormentes e cansadas do fumo da mente deixou-se sorver no fumo líquido e volátil que se dissolvia na atmosfera amena do quarto, de olhos bem fechados.. - mais uma vez.

(..)

os ecos de melodias passadas, pesados, não deixam de a perseguir compulsiva e avidamente, com sede de abutre; tenta contorná-los mas resulta sempre entropia caótica interior. afinal, o Quê? o porquê,não o encontra, só o como ou o quando.

os esqueletos imóveis, outrora trancados no armário, voltam a conseguir escapar e a deixar as habituais sequelas como legado memorável, a cada passo largo.
e de repente? (desvaneceu-se.)






domingo, 10 de maio de 2009

semente, A.

Assistindo ao perene escorrer do nosso percurso, reflicto e medito. - Terá todo este labirinto de acasos e acontecimentos sucedido por artifício de algo ou alguém?

Encerro as pálpebras por instantes e tento afastar-me de tudo o resto.
Ouço-te. Ouço-nos correndo por entre searas, de corações descompassados e apertados, devorando a seiva da vida que nos pertence.
Fica em mim essa doce reminiscência que me beija. Inefável como toda a alma o é.

sábado, 9 de maio de 2009

Palco(s)

A cortina desce, vermelha e pesada, e o palco é devorado pelo silêncio e pela serenidade. Permaneço sozinha, sentada precisamente no centro da plateia eremita, a escutar a peça trágica que decorre no meu interior.

Ouço os anjos e demónios que se debatem ferozmente, em busca de um consenso longínquo e improvável – os opostos dificilmente se encontrarão e cruzarão harmoniosamente, é algo que não condiz com a nossa essência.

Assisto, como quem “vê de fora”, à atribulada peça que se desenrola na minha cabeça. É como se saísse de dentro de mim e me fitasse demoradamente, me auto-observasse com olho cirúrgico e, de súbito, entendesse tudo.

A peça prossegue, dominada pela tragicidade que tão-bem a caracteriza.
Faço agora parte integrante dela, cabendo-me o papel mais insignificante e invisível de todos: encerro em mim toda a nulidade e pequenez possível e, ainda assim, sorrio.

Entendo, então, que a minha existência consiste num enredo dramático-trágico – à semelhança do que se passa no teatro e nos seus meandros – que se liga, todo ele, a partir de conexões inimagináveis; como se todos habitássemos numa mesma gaiola, abafada e pequenina, onde todos conhecem os rostos uns dos outros. Entendo-me e vejo-me, entorpecida e agitada, interior e simultaneamente; numa corrida furiosa constante e na estaca zero onde já conquistei lugar cativo.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

madness' essay

ouço os passos em volta e percebo que muitas há de mim; cada uma delas deixada para trás, em cada momento e local especial (capacidade mutante-fascinante, esta, a do ser humano).

(Um dia azul, no outro verde - de início costumava desassossegar e assustar-me a mente, mas agora percebo que é parte da essência humana e, talvez por isso mesmo, incontornável;e nada disto é necessariamente mau. é Humano. carne esponjosa e porosa; vulnerável a intercâmbios osmóticos e simbióticos com tudo à sua volta. trocas e influências que nos moldam como sábios oleiros, que nos vão acrescentando sempre mais, seja verde, azul, violeta ou mesmo preto: fazem de nós aquilo que somos.)
Não, não acontece só aos outros. não era só Pessoa quem tiha tantos eu's distintos - por vezes contraditórios - : todos nós os temos, bem vivos e bem dentro de nós. simplesmente não os materializámos em obras de arte expostas (e partilhadas com o) ao mundo.
Nem todos somos génios como Pessoa. somos, indubitavelmente, loucos escondidos por entre as ranhuras dos nossos seres, sempre à espreita, a tentar provar a luz do dia, mas muitas vezes empurrados para trás, com olhar de desdém de um algum mocho severo que nos disciplina.
18.04.09