Mostrar mensagens com a etiqueta Tempo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tempo. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Há dias assim

quando já não resta mais ninguém, quando as paredes e a atmosfera se enchem de vazio azul, quando tudo é cobrido por um silêncio incrível e voraz, aí só resta ela. ela e só ela; à mercê dos seus gritos e tempestades interiores. gritos que não se ouvem e tempestades sem chuva - apenas iluminadas por trovões radiosos.

ouve-se o som da porta a fechar, ruidosa, e da chave a rodar na fechadura. sentada de pernas à chinês, encostada a uma parede branca-cor-de-laranja e com a cabeça a pender para um dos lados, repara, um por um, em todos os detalhes característicos daquele cúbiculo, e pensa como tudo poderia ter sido arranjado e organizado de forma tão diferente. não fossem as nossas criações fruto de circunstâncias momentâneas e efémeras. um minuto a seguir, e tudo se teria feito de forma completamente diferente.

no país vizinho, alguém martela a cabeça com labirintos sem caminhos concretos e sem início, meio e fim. alguém pede desculpas evitáveis por esboços borrados que não se apagam, muito menos têm (re)solução.
a rapariga de pernas sentadas à chinês ecnontra-se agora deitada na tijoleira que lhe arrepia a pele, enquanto contempla as fotografias antigas coladas no tecto. gravuras que encerram em si sentimento e momentos amenos. abre os olhos e percebe que não há fotografias, só postais e posters comerciais.
recompõe-se e acende um cigarro. abre a janela e conta as estrelas. hoje estão mais brilhantes que o habitual e a lua cada vez mais pequena - irónico. não gosta destas noites, em que a lua se encontra em fase (de)crescente, dá-lhe a sensação de estar a desaparecer, aos poucos..
desistiu de manter o estado de vigília, deixando-se agora sorver por momentos e silêncios. folhas rabiscadas esquecidas em cima da escrivaninha e isqueiros sem gás, por todo o lado. apaga o cigarro no cinzeiro metálico e volta a fechar a janela. abraça-se a si mesma, enrodilhada e de cabeça escondida, enquanto as lágrimas chegam, brandas e apaziguadoras. o tempo não volta atrás, muito menos deixa espaço para segundas oportunidades. o travo amargo do 'tarde demais' há-de surgir, com toda a sua magnificiência, algum dia, à nossa porta. os 'nada é impossível' deixaram de fazer sentido para aquela mente utópica e sonhadora. hoje acordou e percebeu que existe um mundo concreto lá fora e que as ilusões fazem parte das brincadeiras de criança.
não se sente melhor quando se afunda em édens líquidos e fumos gasosos. o mundo muda, por instantes, mas um segundo e a Realidade atroz regressa, mais violenta e sádica do que antes. o Tempo mais ambicioso e ganacioso que nunca, como que um guarda-sombra. as pessoas à sua volta permanecem na mesma, senão mais disformes ainda. mais odiosas e insuportáveis.
há dias em que quer gritar aos ouvidos de todos os estranhos com quem se cruza na rua, gritar-lhes injúrias e desonras que os magoem e os deixem feridos e vulneráveis. dias em que suspeita de toda a gente e que julga que o mundo inteiro se uniu contra si, em constante conspiração, (com segredos ao ouvido, e tudo) ; há dias em que simplesmente desiste de tudo, e se deixa ficar de pantufas todo o dia, esquecendo que existe uma realidade palpável lá fora.
Há Dias.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O Tempo pára. O mundo prossegue o seu curso normalmente – ou quase –, como se nada fosse. Lançam-se foguetes algures num paraíso perdido, do outro lado do mundo.
Onze horas em Tóquio, neste momento. Os fusos horários sempre nos atrapalharam e confundiram a mente (não é assim?).

Momentos solenes dão lugar a decisões vertiginosas – pés no abismo, prestes a deixarem-se sorver pela força gravitacional, apartando-se, assim, do mundo real e do tempo terrestre.

A borboleta bate as asas, do outro lado do mundo e, talvez por isso, aqui se tenha instaurado o caos, a tempestade monstruosa que tudo abarca em seus braços traiçoeiros, semelhantes aos tentáculos de um polvo, ambiciosos e manhosos. “Não te percas”, diz alguém, algures no meio do atlântico, por entre a magia inebriante das ilhas… (ilhas perdidas no oceano, que sempre são encontradas ou local de encontros e desencontros).
- O tempo volta a parar, a borboleta baterá de novo as asas, instaurando o caos na outra ponta do planeta. Num mar de sensações, expressões, sentires e vontades, assim nos encontramos, diariamente; assim alimentamos a alma e damos de comer ao coração.
O Tempo volta a parar, uma e outra vez, e há-de parar muitas mais, em simultâneo ou de modo desarmónico, em vários pontos do planeta. É assim que funciona e é neste mundo que (todos) vivemos. Nesta organização caótica, composta de equilíbrios efémeros por entre as nossas entropias interiores. E é também disto que todos somos feitos: de fragmentos de tempo perdidos – mas guardados –, de pedaços de emoções, outrora sentidas – também agora guardadas –, de poeiras e pó dos dias, em nós acumulados; de poesia da vida, de ironias fatídicas e de acasos cruzados, de encruzilhadas traiçoeiras e voos humanos. Celestiais…
*.
(sim.)