terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O para.peito

Abro um novo capítulo no livro já gasto e amolecido pelo tempo. Deixo que a mão se funda no papel húmido e obsoleto; desfaço os nós da garganta e deixo que os novelos se deslacem com a delicadeza que lhes é tão característica.
Desacorrento a alma e deixo-a voar, misturar-se com o ar e respirar. Finalmente.

Permito-me a falar, de forma ordeira e civilizada, comigo mesma, agora a sós.
Abandono os sonhos, há tanto embrulhados em papel de lustro, à espera de ser abertos. Abandono-os para que possam, finalmente, levitar e alcançar o seu destino…
Afinal, de tanto os proteger dentro de uma redoma tão sufocante quanto impenetrável, sempre os espartilhei, ao invés de, pelo menos (!), os concretizar, para que ganhassem vida. Finalmente.

Liberto também os fantasmas em forma de esqueletos pendurados no armário. Já não preciso deles. Sempre mantivemos uma relação de dependência ambivalente. Se me escapavam, insistia em trancá-los de volta no armário; se lá permaneciam, sufocava-me a mim mesma com a sua presença…






(...)












Repouso a mente no parapeito do terraço e deixo-me absorver pelos cheiros, cores e texturas da atmosfera. Dentro das cores, reparo nas tonalidades – as doces tonalidades. Desassossego-me com a sua beleza…
Lembro-me do senhor dos ovos verdadeiros e da rapariga das mãos (sempre) frias. Inspiro, expiro e suspiro, com os olhos cerrados de êxtase.

queria andar sempre de mão dada com aquele sorriso triste e com aquela melancolia pesada nos olhos. Afinal, quem não se comove com tristezas? Tocam-nos, não só pela intensidade, mas acima de tudo pela sua beleza delicada, que tão-bem nos deleita… nada de sadismos; e tudo isto também não é para compreender.



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1 comentário:

Anónimo disse...

olá. obrigada pelo comentário. espero que estejas bem, etc etc
(a transição ainda não acabou, nem sei se começou ou é só um esboço)

C.atarina